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Ética se tem ou não: simples assim

Quando pessoas de uma sociedade acham que ética é algo que se pode questionar conforme a opinião ou o ponto de vista de cada um: este é um grupo doente, míope e pernicioso. Comunidades ou empresas assim, normalmente, são ‘acima de qualquer suspeita’. E este é o problema para a cura.

Um movimento silencioso de restauro da ética vem sendo buscado freneticamente pelo mercado brasileiro. Ao contrário dos escândalos na política nacional que rendem mídia e em quase na maioria dos casos sem qualquer identificação ou punição de culpados, grande parte do setor empresarial quer se distanciar desse ‘chavão’ de conduta por conta do mar de lama que grandes empresas nacionais desnudaram ao mundo.

Nas empresas ‘comuns’ esse desvio de conduta não é diferente. A má-intenção de funcionários pode estar invisível dentro de uma empresa e isso é fator de preocupação, pois pode causar perdas no faturamento. Quase sempre, por trás de problemas identificados e justificados como ‘erros humanos’ ou negligência há a má-fé. De cada 10 empresas 9 tem algum problema de conduta ética em algum
departamento ou processo.

Entre os vários possíveis agentes causadores da perda, como clientes, usuários, fornecedores, agentes externos (fraudes ou furtos), os funcionários devem ser fonte de constante preocupação para a redução de perdas, pois estão envolvidos em inúmeras situações e transações, como o contato com fornecedores, clientes e terceirizados, que facilitam a formação de conluios. Isto porque, a incidência de atos dessa natureza podem refletir diretamente no valor da empresa e diminuir a capacidade da empresa de controlar seus riscos.

A preocupação ética, apesar de nos parecer algo que deva estar inerente e óbvia na conduta de funcionários e gestores, nem sempre é percebida no dia-a-dia de uma empresa. Em pequenos atos, em pequenos gestos, até no tom de voz pode estar escondido ações da má fé. Este foi o foco de estudos e de iniciativas das áreas de redução e prevenção de perdas das empresas.

Esta realidade foi confirmada pelo Provar - Programa de Administração do Varejo, da Fundação Instituto de Administração (FIA) de São Paulo, que realizou uma pesquisa há cerca de 9 anos sobre prevenção de perdas com uma amostragem de 53 empresas, num universo de 2.961 lojas correspondendo a 20% do faturamento total do varejo brasileiro, e revendo cada item dessa pesquisa me pareceu muito atual, como se hoje tivesse sido feita. Na pesquisa que continua atual e, espantosamente, com números realistas aos de hoje, mostrou que 74% apontaram a introdução de processos mais cuidadosos no recrutamento e seleção de novos funcionários. Um projeto ou trabalho de prevenção e redução de perdas que não considera de maneira séria a má-intenção de funcionários está ‘capenga’.

Uma arma contra essa situação é a informação. O levantamento de dados é a primeira etapa para a prevenção de perdas. Elas estão disponíveis no sistema de informação da empresa, no mercado e, principalmente, na cabeça de cada funcionário. As organizações trabalham muito mal as informações retidas pelos próprios funcionários. As pessoas ouvem, vêem, e conhecem as vulnerabilidades e ameaças à empresa em seu cotidiano. Às vezes, esses funcionários relatam os problemas para colegas, mas a informação acaba se perdendo por não haver vontade de mudar os processos.

Com mecanismos de coleta de informações, sugestões ou de Disque Denúncia, as empresas começam a prevenir perdas por má-intenção. Mas ainda tratam de forma isolada as informações coletadas. Existem padrões de comportamento mal-intencionados que a empresa não resolve porque tenta solucionar os casos isoladamente ou simplesmente não trata a informação que coletou de forma coerente. Ao invés de resolver sempre os mesmos problemas, é necessário reunir todos os tipos de informação, de maneira que se possa identificar e tratar o comportamento padrão.

Os programas internos de motivação e de comunicação com os funcionários são canais que podem aproximar o problema da solução. A ideia é mostrar que a empresa está atenta. Motivando, assim, as pessoas de bem e inibindo a pessoa mal-intencionada.

Das lojas pesquisas pelo Provas, 35% admitem que devem adotar futuras políticas de prevenção de perdas e programas de comunicação e incentivo de funcionários. É importante explicitar a código de ética da empresa. Muitas vezes, os funcionários não sabem exatamente o que podem ou não fazer no ambiente de trabalho, pois há um limiar muito tênue entre o que é considerado postura ética ou não, por conta da cultura brasileira do ‘jeitinho’. Como se pudesse haver variações ou níveis de relevância na conduta ética.

Especialistas indicam cinco passos gerais para um plano de prevenção e redução de perdas. Levantamento de informações é o primeiro passo: identificação e mensuração das perdas totais, classificando lojas e produtos conforme o nível de perdas. O segundo passo diz respeito aos procedimentos. Implementação de controles e formulários e redesenho de processos de gestão são as ações sugeridas.

Em seguida, o foco é a pessoa. Nesta etapa, é recomendada a implantação de programas de conscientização, comunicação e treinamentos técnicos dos novos procedimentos. O quarto passo focaliza a tecnologia, a partir da racionalização do uso de etiquetas e alarmes e implementação de mudanças na infraestrutura das lojas. Por fim, vem o controle da qualidade. É neste estágio, que são
implementados os indicadores de perdas e revisão de performance de resultados. Mas se a cultura da empresa está construída em conceitos e não em condutas, o discurso poderá durar 100 anos, mas fatalmente levará à perda de credibilidade.

O mais grave são os casos de empresas que caem no abismo por suas próprias escolhas e decisões no Mapa Estratégico. Quando se insiste na escolha apenas do conceito, a conduta se torna um ser replicante e não uma postura efetiva a seguir.    

Nada ou quase pouco poderá ser modificado se o ‘câncer’ maior não for enfrentado. A encrustada cultura brasileira de não respeito às leis e a negação em acatar regras, é a doença. Todo o resto é consequência. É fato que do gari ao juiz, há incríveis semelhanças de conduta e da linha de pensamento. Muda apenas o grau dos crimes e infrações e o raio de pessoas atingidas.

Enquanto ética for tratada como uma questão particular de cada um, o Brasil continuará a produzir pessoas que tem certeza que as leis são para os outros e as regras são boas apenas se lhes convém. Quem acha ter ‘direto’ de questionar a razão existencial do Ser Ético, lamentavelmente é um hipócrita. Ética se tem ou não: simples assim. Ou é certo, ou é errado, sem variações. Pessoas boas fazem coisas muito ruins, quando a ética não é a regra – irrefutavelmente - básica.

Kátya Desessards
Consultora & Coach

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