Pular para o conteúdo principal

Temeridades do cenário político no mercado...

ANÁLISE | aprofundamento da influência do cenário político nacional no mercado, com um breve exercício de ponderações sobre quais as alternativas à economia no geral.

 (parceria André Perfeito, economista-chefe da Gradual Investimentos, de São Paulo).

O mercado mais uma vez renova as apostas com a atenção voltada à Brasília, movimento esse que já chamamos atenção não ser muito correto uma vez que a dinâmica global joga um papel muito forte no mercado de capitais local e com o Real. Muitos especulam sobre como será o novo governo Temer e se ele vai colocar já o “bloco na rua” assim que a presidente for afastada daqui algumas semanas. Sugerimos cautela mais uma vez.

Acreditamos que imaginar que vai haver grandes mudanças logo é prematuro e é temerário apostar as fichas cegamente nessas impressões difusas, afinal o vice-presidente Temer é uma pessoa reservada e não disse exatamente o que quer fazer. Ele tem usado interlocutores para testar certas proposições (o que é uma atitude correta dado a complexidade do momento), mas ele pode simplesmente mudar de opinião à depender do arranjo final entre as forças que vão lhe apoiar. O documento “Uma Ponte Para o Futuro” lançada o ano passado carece de detalhamentos e como sabemos o diabo mora no detalhe.

Temos que ter em mente algumas considerações, a saber:

1)  O Senado não deve votar o impeachment antes ou durante as Olimpíadas (que será entre os dias 5 de agosto a 21 de agosto). Votar o impeachment nesse período jogaria mais lenha na fogueira num país que já está sendo amplamente questionado sobre a capacidade de organizar os jogos;

2) O Senado deve votar a questão em setembro por outro motivo também. Setembro vem antes das eleições municipais, e a votação do impeachment irá canalizar mídia espontânea para todos os senadores às vésperas da eleição municipal subsequente, o que pode ajudar seus aliados locais (o primeiro turno será dia 2 de outubro e o segundo turno dia 30 de outubro);

3) O vice-presidente Michel Temer não deve fazer nada até que seja decidido o impeachment, e por outros motivos também:

           3.1) As linhas gerais do plano econômico que virá será de cunho recessivo (ajuste fiscal forte) e fazer isso no meio de uma crise econômica e social e em pleno ano eleitoral não me parece ser uma opção para um governo que começa com popularidade extremamente baixa (11% de aprovação segundo algumas pesquisas) e pode sacrificar parte dos votos que receberia o seu partido;

           3.2) O Congresso não vai aprovar nada antes de decidido o impeachment, ou seja, projetos grandes (como uma DRU ampliada ou aumento de impostos) não serão apreciadas pelo plenário;

           3.3) Seria mais sábio - politicamente falando - deixar para realmente fazer algo depois das eleições de outubro. Se Temer fizer um movimento agressivo (como por exemplo colocar em votação a Reforma da Previdência) irá afastar aliados. Lembremos que o Banco Central deve cortar a SELIC em Outubro, isso pode facilitar a discussão política depois das eleições.

Temos que lembrar que quem votou pelo impeachment no Congresso não necessariamente vai apoiar Temer e vai depender muito da habilidade política dele amarrar todas as pontas. Acredito que será um governo de difícil coordenação uma vez que o PT e movimentos sociais vão ser bastantes radicais o ano que vem. Outra questão a ser administrada será o presidente da Câmara Eduardo Cunha que está na linha de tiro da comissão de ética da câmara e já chama muita atenção da sociedade para si. Temer terá que ser hábil em contornar essa situação. Lembremos também que a Lava Jato deve continuar a criar fatos novos e agora qualquer coisa que envolva o PMDB irá ganhar uma relevância maior que antes.

Tudo isso em conjunto deve ser observado pelos os investidores e é, simplesmente, muito cedo para apostar numa única direção. Continuamos a trabalhar com o cenário de impeachment de Dilma, mas isso não quer dizer que o governo Temer será simples.


Comentários